Arqueólogos querem decifrar método construtivo da maior concentração de casas subterrâneas já localizadas no país
O município de São José do Cerrito, vizinho de Lages, no planalto catarinense, abriga o que é considerada a maior concentração localizada no país de casas subterrâneas – assim chamadas as estruturas abaixo do nível do solo e que possivelmente serviam de moradia para antigos habitantes da região. A datação feita remete ao ano 800 de nossa era, ou seja, há mais de mil anos.
Para os arqueólogos, é uma oportunidade de colocar mais uma peça no imenso quebra-cabeças da história da ocupação do território brasileiro por sociedades que não deixaram registros escritos – apenas vestígios, como o que permitiu a localização desse imenso conglomerado de estruturas subterrâneas.
A olhos leigos, há pouca coisa a ser vista: apenas imensos buracos abaixo do nível do solo, o maior deles do tamanho de um prédio de dois andares de cabeça pra baixo – 7 metros de profundidade, num diâmetro de 20 metros. Mas, para quem vê a terra como fonte de informação do passado, há ali muita coisa a ser pesquisada: solos de diferentes padrões mostraram exatamente o que havia sido escavado para servir de habitação e o que havia sido colocado depois, como aterro para tapar essas estruturas.
“Queremos entender o método construtivo desses engenheiros do planalto”, afirma o padre jesuíta Pedro Ignácio Schmitz, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos-RS), arqueólogo coordenador da pesquisa, financiada pelo CNPq, que está sendo desenvolvida em conjunto pela universidade gaúcha e pela Unisul em São José do Cerrito.
Somente na localidade de Boa Parada, numa área de um quilômetro de diâmetro, foram encontradas 27 estruturas. Todas elas estão 400 metros equidistantes do centro, onde três estruturas foram feitas da forma inversa: acima do solo, que os arqueólogos denominam de danceiros, ou espécies de praças públicas, utilizadas para diversos rituais.
Neste local, a equipe de arqueólogos passou o mês de janeiro escavando para observar diferenças de solo. Cavando na profundidade, eles conseguem chegar até onde a terra é igual ao seu entorno, evidenciando a profundidade desses imensos buracos feitos na terra que, pelo que se sabe até o momento, seriam habitações subterrâneas, sob as quais seus habitantes colocavam uma cobertura de proteção. Da mesma forma, as estruturas acima do solo são identificadas pela terra diferente. Ao redor de todas elas, abaixo e acima do solo, há ainda aterros feitos.
Os pesquisadores falam como se o local tivesse abrigado, no passado, uma grande concentração de população. Seria como uma cidade perdida que eles aos poucos vão reconstruindo, recontando a história do local antes ainda da chegada dos europeus.
A época remete a antecessores dos xokleng, cujos artefatos podem ter tido como matéria-prima madeira e palha, por exemplo, facilmente decomposto pela ação do tempo. Ou seja, em vez de construções monumentais, que resistiram ao passar dos anos e ainda hoje permanecem, para admiração de todos, como no México, por exemplo, ou no Peru, com sua cidade perdida dos incas.
Mas, tal e qual essas civilizações que deixaram à posteridade obras maiores, a que existia no planalto catarinense antes da chegada dos europeus também pode ter sido muito rica. “A história que se conta do Brasil é muito relacionada à chegada dos europeus, como se os habitantes anteriores não tivessem história.
O trabalho da arqueologia é justamente mostrar a riqueza de uma ocupação anterior, que não se expressa em documentos escritos, mas em vestígios como esses. O que falta é isso ser contado, revalorizando o que havia antes da chegada da civilização
européia”, observa Marcus Vinicius Beber, arqueólogo da Unisinos.
“Há indícios de uma população bastante densa, em perfeita interação com o meio, indicando mesmo uma civilização. O conjunto de casas subterrâneas segue o modelo de se localizarem nas áreas mais altas, próximas a matas de pinheiros que forneciam
alimentos (pinhão) e pequenos córregos de água”, ressalta a arqueóloga Deisi Scunderlick Eloy de Farias, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia (Grupep-Arqueologia) da Unisul, que participa das pesquisas.
E há ainda mais estruturas subterrâneas no município – cerca de 200, segundo mapeamento realizado ainda na década de 1970 pela arqueóloga Maria José Reis, da UFSC. Mas escavações mais sistemáticas só começaram muito tempo depois. Padre Ignácio começou a escavar na região em 2007. A próxima etapa das pesquisas será na localidade de Rincão dos Albinos, também em São José do Cerrito.
FOTO: O arqueólogo Pedro Ignácio Schmitz, da Unisinos, mostra as escavações ao prefeito e à secretária de Educação. Abaixo, junto com os arqueólogos Deisi S de Farias, da Unisul, e Marcus Vinicius Beber, da Unisinos, dentro de uma das estruturas de mais de 4 metros de profundidade.
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